O desenvolvimento de antibióticos e outras terapias antimicrobianas é, sem dúvida, a maior das conquistas da medicina moderna. No entanto, o uso excessivo e/ou mau uso de terapia antimicrobiana previsivelmente leva à resistência dos micro-organismos. Bactérias resistentes a antibióticos, tais como à meticilina (Staphylococcus aureus), espécies de Enterococcus resistentes à vancomicina e a Carbapenema (Enterobacteriaceae) surgiram. Certas espécies são resistentes à múltiplos antibióticos e constantemente são chamadas de “superbactérias” pela mídia.

A sangria foi um tratamento bastante utilizado na medicina medieval contra infecções.

A sangria foi um tratamento bastante utilizado na medicina medieval contra infecções. (Clique para ampliar)

As terapias alternativas têm sido utilizadas para tratar infecções desde a antiguidade, mas nenhuma é tão segura e eficaz quanto a terapia antimicrobiana moderna.

Infelizmente, devido ao aumento da resistência e da falta de desenvolvimento de novos agentes antibióticos, a possibilidade de um retorno à era pré-antimicrobiana pode tornar-se realidade.

Então como as infecções tratadas antes dos antimicrobianos (Século XX) foram desenvolvidas?

SANGUE, SANGUESSUGAS E FACAS

Um homem sentado numa cadeira, com os braços estendidos enquanto seu sangue jorra num pote, à medida em que uma freira adiciona sanguessugas para 'purificar' seu corpo.

Um homem sentado numa cadeira, com os braços estendidos, enquanto seu sangue jorra num pote, à medida em que uma freira adiciona sanguessugas para ‘purificar’ seu corpo.

A sangria foi utilizada como uma terapia médica três mil anos atrás. Originou-se no Egito Antigo e foi usada até meados do século 20.

Dos textos médicos da Antiguidade aos anos da Segunda Guerra Mundial, encontra-se uma ampla variedade de recomendações para o uso da sangria, particularmente infecções. Em pleno ano de 1942, o médico canadense William Osler incluía a sangria como um tratamento legítimo para a Pneumonia em seu livro “Princípios e Práticas da Medicina”.

A sangria é baseada em uma teoria médica ancestral em que, no corpo humano, existem quatro fluídos corporais (ou humores) que necessitam estar em equilíbrio para a preservação da saúde do indivíduo – sangue, fleuma, bile negra e bile amarela.

Pensava-se que as infecções eram causadas pelo excesso de sangue – logo, este “excesso” era removido do paciente afligido. Um dos métodos consistia em fazer incisões em artérias e veias do paciente ou aquecer copos de vidros e coloca-los sob a pele perfurada, de modo à criar um “vácuo”, quebrando os vasos sanguíneos em pequenas partes, resultando em amplas áreas de hemorragia sob a pele. Mais infame ainda era também o uso de sanguessugas em cortes intencionais como uma variante da sangria para “purificar” o sangue.

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Curiosamente, embora a sangria fosse recomendada por médicos, a prática era realizada na verdade por barbeiros, ou como naquela época eram chamados – “cirurgiões-barbeiros”.

Na verdade, havia alguns “benefícios” para quem tentasse curar-se de doenças bacteriológicas por meio da sangria – pelo menos para certos tipos de bactérias nas fases iniciais da infecção. Muitas bactérias requerem ferro para se replicar, e o ferro é produzido na heme, um componente das células vermelhas do sangue. Em teoria, quanto menor o número de células vermelhas do sangue, menor a quantidade de ferro disponível para sustentar a infecção bacteriana.

VAI UM POUCO DE MERCÚRIO AÍ PRA SUA SÍFILIS?

Uma xilogravura de 1689 mostrando vários métodos de tratamento da sífilis, incluindo a fumigação por mercúrio.

Uma xilogravura de 1689 mostrando vários métodos de tratamento da sífilis, incluindo a fumigação por mercúrio.

Historicamente, componentes químicos vêm sendo utilizados no uso de tratamentos e terapias para uma variedade de infecções, como a sífilis.

Iodo, bromo e variantes do mercúrio foram usados para tratar feridas infectadas e gangrenas em inúmeras guerras; o bromo era o utilizado com mais frequência, mas era muito doloroso quando injetado e causava grandes danos no tecido da pele. O tratamento inibia a replicação de células e bactérias, mas também destruía as células humanas normais.

Os compostos de mercúrio foram usados para o tratamento da sífilis de 1363 a 1910. Eram aplicados diretamente na pele, via oral ou injeção e podiam causar danos colaterais severos nas mucosas, no tecido epitelial, câncer, dano cerebral e até mesmo a morte. O Arsphénamine, um derivado do arsênio, foi utilizado durante a primeira metade do século 20. Apesar de eficaz, os efeitos secundários incluíam neurite óptica, convulsões, febre, lesão renal e erupção cutânea.

Felizmente, a partir de 1943, a abrangência do uso da penicilina encerrou seu uso e passou a ser o tratamento de primeira linha para todos os estágios da sífilis.

DE OLHO NO JARDIM

Tratamento (inusitado) a partir do engulo de plantas.

Tratamento (inusitado) a partir do engulo de plantas.

Ao longo dos séculos, uma variedade de remédios à base de plantas evoluiu para o tratamento de infecções. Uma das mais famosas terapias derivadas é a da quinina, utilizada para tratar a malária. Ela foi originalmente isolada da casca da árvore quina, que é nativa da América do Sul. Hoje usamos uma forma sintética de quinina para tratar a doença. Antes disso, ela era seca, moída em pó e misturada com água para as pessoas beberem. O uso da quina para tratar febres foi descrita pela primeira vez por missionários jesuítas em 1600, apesar de ter sido provavelmente usada por populações nativas muito mais cedo.

A Artemisinina, sintetizada da planta Artemísia (sweet wormwood) é outro composto químico efetivo no tratamento da malária. Um cientista chinês, Dr. Tu Youyou e sua equipe analisaram antigos textos médicos e remédios populares chineses, identificando que extratos da Artemísia eram utilizadas eficazmente à séculos para a contenção do parasita da malária em animais. Ele foi agraciado com o Prêmio Nobel 2015 em Fisiologia/Medicina pela sua descoberta.

Você provavelmente possui uma variante química botânica bastante eficiente contra infecções em seu armário da cozinha. O uso de mel na cicatrização de feridas remonta aos sumérios do ano 2000 A.C. O alto teor de açúcar pode desidratar as células bacterianas, enquanto a acidez pode inibir o crescimento e divisão de muitas bactérias. Mel também possui uma enzima que reduz o oxigênio para o peróxido de oxigênio, que mata as bactérias.

Como outras terapias derivadas de plantas, o mel inspirou a criação de produtos farmacêuticos. Existem produtos à sua base utilizados na cicatrização de queimaduras, bem como outros tipos de feridas.

COMBATE À RESISTÊNCIA MICROBIANA

Embora algumas dessas terapias provaram ser eficazes o suficiente para que ainda hoje se mostrem úteis e usadas de alguma forma, no geral, elas já não são tão boas como os antimicrobianos modernos. Infelizmente, graças à utilização excessiva e indevida, os antibióticos estão se tornando menos efetivos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a cada ano pelo menos duas milhões de pessoas são infectadas com bactérias que são resistentes aos antibióticos e pelo menos 23 mil pessoas morrem como resultado dessas infecções.

A resistência pode surgir em igual medida em outros micro-organismos como fungos, parasitas e fungos e vêm levantando a preocupante possibilidade de que certas infecções tornarem-se intratáveis com os atuais medicamentos e compostos que temos hoje. Há uma “corrida do ouro” de pesquisadores de várias partes do mundo na busca por novos tesouros botânicos e compostos sintéticos para o combate de doenças, com dezenas de testes sendo conduzidos diariamente.

Lembre-se de usar medicamentos antibióticos somente quando necessário, imunizando-se adequadamente.

Acompanhando infecções resistentes podemos aprender mais sobre elas e seus fatores de risco, aprimorando nossos conhecimentos para melhor combate-las, bem como limitar o uso de antibióticos em humanos e animais, reduzindo os riscos da proliferação de parasitas super-resistentes.

Leia mais em Biologia & Medicina.

Fonte: The Conversation


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Sobre o Autor

Gabriel Pietro têm 18 anos, é Web Designer e Redator do Acervo Ciência, escrevendo diariamente para o site. Já bancou uma de técnico de informática, e ainda banca de astrônomo amador, sua maior paixão. Atualmente gradua-se no curso de Gestão da Informação, na Universidade Federal de Uberlândia, que não sabe se é de exatas ou de humanas. Assim como ele. Também é aficionado por cinema, comics, política, economia, tretas e música indie. Bata tudo isso no liquidificador e tente entender sua cabeça.