Em 1950, o físico italiano Enrico Fermi levantou uma importante questão sobre o Universo e a existência de vida extraterrestre. Dado o tamanho e idade do Universo, ele afirmou, e a probabilidade estatística de vida emergente em outros sistemas estelares, por que a humanidade não viu quaisquer indícios de vida inteligente no Cosmos? Essa dúvida, hoje conhecida como Paradoxo de Fermi, continua a nos atormentar até hoje.

Se, de fato, existem bilhões de sistemas estelares em nossa galáxia – e as condições necessárias para a vida florescer não são tão raras (como apontam os cientistas) – onde estão todos os alienígenas? De acordo com um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade Nacional da Austrália, a resposta pode ser bastante simples: eles estão todos mortos! A equipe chamou de “Gaian Bottleneck” (ou o Gargalo de Gaia) a solução para este paradoxo – em que sugere-se que a vida seja tão frágil que a maior parte dos lugares em que se formou, não desenvolveu-se por completo.

Para colocar isto em perspectiva, vamos primeiro considerar alguns números. Até a presente escrita deste artigo, os cientistas descobriram um total de 3280 exoplanetas em mais de 1500 sistemas planetários, incluindo 550 sistemas planetários múltiplos. A complementar que, segundo um relatório publicado em 2013 pela Academia Nacional de Ciências dos EUA, poderiam haver até 40 bilhões de planetas do tamanho da Terra que orbitam zonas habitáveis de estrelas semelhantes ao Sol ou anãs vermelhas dentro da Via Láctea – isso com base apenas em dados primários da sonda Kepler, o “caçador de exoplanetas”.

Então, realmente, não deve haver escassez de civilizações alienígenas por aí. E à julgar que alguns cientistas estimam que nossa galáxia têm mais 13 bilhões de anos, houve tempo de sobra para algumas destas civilizações se desenvolver, evoluir, e garantir toda a tecnologia necessária para nos detectar e, quem sabe, chegar até nós. Inspirador. Mas, segundo a Dr. Aditya Chopra, autor-chefe do periódico ANU, é preciso levar em conta que o processo evolutivo é preenchido com uma certa quota de obstáculos diversos.

Dr. Aditya Chopra, da Escola de Pesquisas e Ciências Terrestres ANU.

Dr. Aditya Chopra, da Escola de Pesquisas e Ciências Terrestres ANU.

“O início da vida é frágil, por isso acreditamos que raramente evolua com rapidez suficiente para sobreviver,” diz. “A maioria dos ambientes planetários são instáveis. Para produzir um planeta habitável, formas de vida precisam regular gases do efeito estufa, tais como água e dióxido de carbono para manter as temperaturas da superfície estáveis.”

Considere nosso Sistema Solar. Nós todos sabemos que o planeta Terra têm absolutamente todos os ingredientes necessários para dar origem à vida tal como a conhecemos. Ela está inserida na chamada “Zona Cachinhos-Dourados”, ou Zona Habitável – local espacial ideal para a concentração de água líquida na superfície, uma atmosfera densa e uma magnetosfera forte o suficiente para proteger o planeta da radiação externa. Como tal, a Terra é o único lugar conhecido onde a vida pode prosperar.

Mas e o que dizer de Marte e Vênus? Ambos os planetas se encontram na Zona Habitável do Sol e acredita-se que os dois tenham possuído vida microbiana no passado. Três bilhões de anos atrás, quando a vida na Terra começava a converter sua atmosfera tóxica primordial, produzindo oxigênio, Vênus e Marte sofreram mudanças cataclísmicas.

Ao passo de que Vênus experimentou um efeito estufa devastador, tornando-se um mundo quente e hostil que é hoje, Marte perdeu sua atmosfera e grande parte de suas reservas de água, se tornando um lugar frio e desértico. Assim, enquanto a vida microbiana na Terra desempenhou um papel fundamental na estabilização do nosso meio-ambiente, quaisquer formas de vida em Vênus e Marte foram dizimadas pelas extremas mudanças repentinas em suas atmosferas.

Trocando em miúdos, quando se considera a probabilidade de vida no Cosmos, precisamos olhar para além das meras estatísticas e observações. Essencialmente, esses planetas onde as formas de vida falharam em emergir rapidamente, foram condenados à permanecer desabitados eternamente.

Em seu relatório, “The Case for a Gaian Bottleneck: The Biology of Habitability” – que aparece na primeira edição da revista Astrobiology 2016 – Dr. Chopra e seus parceiros resumem seu argumento da seguinte forma:

Se a vida emerge em um planeta, ele raramente evolui com rapidez suficiente para regular os gases do efeito estufa e albedo, mantendo assim temperaturas de superfície compatíveis com a existência de água líquida e habitabilidade. Tal questão sugere que (i) a extinção é o padrão cósmico para a maioria da vida que já surgiu nas superfícies dos planetas rochosos e (ii) os planetas rochosos precisam ser permanentemente habitados para se manter habitáveis.”

Embora potencialmente deprimente, essa teoria não oferece uma solução para o Paradoxo de Fermi. Dado o grande número de planetas terrestres, úmidos e quentes, na Via Láctea, deve haver, pelo menos, algumas centenas (ou milhares) de civilizações alienígenas ao nosso redor. E dessas, certamente há algumas que evoluíram a tal ponto que atingiram a escala Kardashev – construindo algo como uma Esfera de Dyson! (Ou pelo menos alguns discos voadores…)

Bactérias produtoras de oxigênio, como a Cyanobacteria Spirulina, foram responsáveis por grande parte da estabilização do ambiente terrestre.

Bactérias produtoras de oxigênio, como a Cyanobacteria Spirulina, foram responsáveis por grande parte da estabilização do ambiente terrestre.

E, no entanto, não só não detectamos qualquer sinal de vida em outros sistemas, como também nada foi encontrado por meio de ondas de rádios pelo SETI (Search Extra Terrestrial Intelligence) desde sua criação. As únicas explicações possíveis para isso são que tanto a vida pode ser mais rara do que pensamos, ou que não estamos procurando nos lugares certos. No primeiro caso, a teoria do “Gaian Bottleneck” pode ter razão do que por que a vida ser tão difícil de (se) encontrar.

Mas, se a segunda possibilidade ser o caso, significa que a nossa metodologia precisa mudar. Até agora, todas as nossas pesquisas têm se voltado para exoplanetas quentes e aquosos como o nosso. Talvez a vida exista lá fora, mas em formas mais complexas e exóticas que ainda não consideramos. Ou, como é muitas vezes sugerido, é possível que os aliens estejam tomando um grande esforço para nos evitar. Esperamos que não seja o caso.

Independentemente disso, o Paradoxo de Fermi perdurou por mais de 50 anos e continuará a resistir até o momento em que entrarmos em contato com uma civilização extraterrestre. Entretanto, tudo o que podemos fazer é especular. À citar Arthur C. Clarke, “existem duas possibilidades: ou estamos sozinhos no Universo ou não estamos. Ambos são igualmente assustadores.”

Fonte: Universe Today, ANU, Astrobiology

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Sobre o Autor

Gabriel Pietro têm 18 anos, é Web Designer e Redator do Acervo Ciência, escrevendo diariamente para o site. Já bancou uma de técnico de informática, e ainda banca de astrônomo amador, sua maior paixão. Atualmente gradua-se no curso de Gestão da Informação, na Universidade Federal de Uberlândia, que não sabe se é de exatas ou de humanas. Assim como ele. Também é aficionado por cinema, comics, política, economia, tretas e música indie. Bata tudo isso no liquidificador e tente entender sua cabeça.