Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844–1900) nasceu em Röcken, na Prússia, numa família religiosa: pai, tio e avós eram ministros luteranos. Estudou grego, latim, filologia e teologia. Mente brilhante, aos 24 anos tornou-se professor titular de filologia na Universidade de Basel.

O conjunto de pensamentos (aforismos) de Friedrich Nietzsche revela uma crítica profunda e impiedosa à civilização ocidental. Crítica à massificação, à visão de mundo burguesa, ao conservadorismo cristão, etc. Dessa crítica surgiu também a questão do valor da existência humana.

Os textos de Nietzsche foram editados e censurados por sua irmã antissemita Elizabeth, que assumiu o controle de seus arquivos depois que ele enlouqueceu, permitindo aos nazistas distorcê-los intencionalmente. O nazi-fascismo apropriou-se das ideias de Nietzsche e as usou em sua propaganda. No encontro histórico de Mussolini e Hitler, em 1938, o líder alemão presenteou o italiano com uma coleção das obras de Nietzsche. Vale lembrar, porém, que o filósofo já em sua época ridicularizava o nacionalismo alemão.

  1. Crítica à Tradição Filosófica:

Alguma vez o meu nome estará unido a algo gigantesco – de uma crise como jamais houve na Terra, a mais profunda colisão de consciência, de uma decisão tomada, mediante um conjuro, contra tudo o que até este momento se acreditou, se exigiu, se santificou. Eu não sou um homem, eu sou dinamite.” – NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo.

De fato, Nietzsche declarou guerra à tradição do pensamento ocidental, realizando uma crítica radical e impiedosa da tradição filosófica e dos valores fundamentais da civilização ocidental.

Nietzsche estabeleceu a distinção entre dois princípios: o apolíneo (Apolo – deus da Razão) e dionisíaco (Dionísio – deus da Festa). Esses dois princípios tornam separados na Grécia socrática que, optando pela razão, secou a seiva criadora e fecunda da filosofia, contida na dimensão dionisíaca.

  1. Crítica à Moral:

O que é tacitamente aceito por nós; o que recebemos e praticamos sem atritos internos e externos, sem ter sido por nos conquistado, mas recebido de fora para dentro, é como algo que nos foi dado; são dados que incorporamos à rotina, reverenciamos passivamente e se tornam peias (amarras que prendem os pés) ao desenvolvimento pessoal e coletivo. Ora, para que certos princípios, como a justiça e a bondade, possam atuar e enriquecer, é preciso que surjam como algo que obtivemos ativamente a partir da superação dos dados. (…) Para essa conquista das mais lídimas (autênticas) virtualidades do ser é que Nietzsche ensina a combater a complacência, a mornidão das posições adquiridas, que o comodismo intitula moral, ou outra coisa bem soante.

Nietzsche denunciou a existência de uma “moral do rebanho” na civilização cristã e burguesa, pois essa moral estaria baseada na submissão irrefletida e acomodada de grande parte dos indivíduos aos valores dominantes. As concepções morais são elaboradas pelos seres humanos a partir dos interesses humanos – ou seja, são histórico-culturais.


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  1. Crítica à Religião

A humanidade tem a necessidade da eliminação do contexto do sagrado. Só assim o humano assumiria com autenticidade sua história.

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje!” – NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência

Com o desenrolar dos séculos, cada vez mais o homem coloca a razão acima de todas as coisas. A frase é uma crítica ao objeto de supremacia humana, isto é, como se a razão fosse a chave para todos os enigmas. Nesse sentido, a ciência é tão dogmática como a religião, pois acredita que o mundo e os fenômenos carregam uma “verdade” inerente na qual o homem pode descobrir através da razão.

Artigo-142_segundoAs pessoas pensam, mas começam a tornar-se tão emaranhadas nas redes da razão que por vezes se esquecem de sentir, de pensar com a alma. O mundo pode ser sentido, também. Não é somente através da razão que se descobrem as coisas, pois sentir revela muito mais.

Nessa frase, Deus não é visto como uma entidade superior, mas sim como o conjunto de todos os sentimentos que a crença em Deus desencadeia em nós. Cada vez mais desprezamos os sentimentos puros, os instintos; cada vez mais acreditamos que tudo tem um selo de “verdade” e “mentira”, de “é” ou “não é”, sendo o homem da atualidade é assim mesmo.

Pouco nos importamos com o conhecimento enquanto busca de sentido e superação num fazer-desfazer criativo da vida. Os problemas existenciais e as angústias dos homens são ocultados em nome do homem liberal que só tem tempo para o trabalho e o acúmulo de riquezas e uma completa compreensão do mundo só pode ser conseguida quando conjugados a razão e o sentimento.

  1. Vontade de Poder:

Não é verdade que o homem procure o prazer e fuja da dor. São de tomar em conta os preconceitos contra os quais invisto. O prazer e a dor são consequências, fenômenos concomitantes. O que o homem quer, o que a menor partícula de um organismo vivo quer, é o aumento de poder: é em consequência do esforço em consegui-lo que o prazer e a dor se efetivam; é por causa dessa mesma vontade que a resistência a ela é procurada, o que indica a busca de alguma coisa que manifeste oposição.”

A dor, sendo entrave à vontade de poder do homem, é, portanto um acontecimento normal – a componente normal de qualquer fenômeno orgânico. E o homem não procura evitá-la, pois tem necessidade dela, já que qualquer vitória implica uma resistência vencida.

Tome-se como exemplo o mais simples dos casos, o da nutrição de um organismo primário; quando o protoplasma estende os pseudópodes para encontrar resistências, não é impulsionado pela fome, mas pela vontade de poder; acima de tudo, ele intenta vencer, apropriar-se do vencido, incorporá-lo a si. O que se designa por nutrição é pois um fenômeno consecutivo, uma aplicação da vontade original de devir mais forte.

Para Nietzsche, a vontade de poder não é apenas a demanda para dominar e controlar: é uma luta por objetivos mais elevados que a mera sobrevivência; e é nessa luta, até mesmo arriscando nossas vidas, que podemos levar a vida digna.

Analogicamente, na Antiguidade, as qualidades do leão – força, vitalidade e poder – eram as virtudes mais celebradas. Na Modernidade, porém, as qualidades do cordeiro – humilde e inofensivo – tornaram-se mais honradas como virtude.

Nietzsche criticou a substituição das virtudes “afirmativas da vida” pelas virtudes “negadoras da vida” – uma mudança histórica que ele imputou ao desenvolvimento das religiões monoteístas.

  1. O Ser Humano e a Humanidade/O Além do Humano:

O que é bom? – Tudo o que eleva no homem o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder no ser humano.

O que é mau? – Tudo o que vem da fraqueza.

O que é felicidade? – O sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência é superada.

Não satisfação, mas mais poder; não paz em geral, mas guerra; não virtude, mas valor ( virtude no estilo da Renascença, virtú, virtude livre de moralismo).

Os fracos e os malogrados devem perecer: princípio primeiro de nosso amor ao ser humano. E nós devemos ainda ajudá-los nisto.

O que é mais nocivo do que qualquer vício? – A compaixão de fato com todos os malogrados e fracos – o cristianismo.” – NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo

Eu lhes ensino o além do humano. O ser humano é algo que deve ser superado. Que fizeram vocês para superá-lo?

Todos os seres até agora criaram algo para além de si e vocês querem ser a vazante dessa grande maré e ainda retornar ao animal, de preferência a superar o ser humano?

Que é o macaco para o homem? Uma galhofa ou uma dolorosa vergonha. E justamente isto que deve ser o ser humano para o além do humano: uma galhofa ou uma dolorosa vergonha.

Vocês fizeram o caminho do verme para o ser humano e muita coisa em vocês ainda é verme. Um dia vocês foram macacos, e também agora o ser humano ainda é mais macaco do que qualquer macaco.

[…] Eis que eu lhes ensino o além do humano! O ser humano e o sentido da Terra. Sua vontade diga: o além do humano seja o sentido da Terra!” – NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra

Artigo-142_terceiroSegundo Nietzsche, o Cristianismo diz que tudo neste mundo é menos importante do que o que está no mundo após a morte. Diz também que devemos nos afastar do que parece importante nesta vida e tentar transcendê-la. Mas, ao fazer isso, nós nos afastamos da própria vida. A ideia do “homem” no Cristianismo nos enfraquece e devemos superar essa ideia limitadora.

Ele considera que o Cristianismo tem um efeito degenerativo, porque doma o espírito e enfraquece a vontade de poder com a sua condenação do orgulho, da paixão, da cólera, dos instintos de guerra e de conquista. Assim, para o filósofo, a moral do super-homem define tudo que intensifica no homem a vontade de potência e que o mau é tudo o que provem do sentimento de fraqueza.


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Sobre o Autor

Felipe Araujo possui 17 anos e é um escritor independente. Futuro graduando do curso de Psicologia, amante de praticamente todas as vias do conhecimento, desde Exatas às Biológicas. Típico venerador da cultura pop - do cinema às HQs-, e eclético em questão de musicalidade, encantado por músicas de ritmo contemplativo. É fissurado na vanguarda surrealista e seu ideal de inconsciente; escreve histórias malucas e que mexem com o imaginário humano, que é complexo pela essência da natureza.