Humildade: o universo e a sua capacidade de colocar-nos em nosso devido lugar.

As vezes parece que nosso ego assume o controle, certo? Em certas situações, nós achamos que somos o centro de tudo, ou seja, todos têm que se concentrar em nossa pessoa, fazer os nossos gostos, etc. É fácil notarmos quando alguém se acha superior a outra pessoa, e isso pode acontecer por vários motivos infundados: uma pessoa acha que possui determinadas habilidades, facilidades, diplomas, status, fama, dinheiro que a outra não. A humanidade como um todo possui esse sentimento, uns com os outros e até mesmo com nossos companheiros de quarto nessa enorme casa a qual chamamos de lar: o planeta terra. Nos consideramos os seres mais “inteligentes” desse planeta, e categorizamos os outros animais como sendo inferiores a nossa espécie. Podemos utilizá-los para fazermos o que quisermos, falamos para nós mesmos. Mas será que somos tão grandes quanto pensamos que somos?

O ser humano sempre se considerou um ser especial. Desde os primórdios da humanidade nós criamos determinados pensamentos e histórias que nos confortam e nos elevam como espécie. Ser criado por algo ou alguém de forma individual e colocado nesse planeta para governar todos os animais é uma delas. É a partir desses preceitos que seres supremos e divinos foram criados. Nós os criamos para preencher essa constante necessidade de sermos o centro das atenções, o ponto principal no universo, os personagens principais no teatro cósmico. Mas isso não passa de histórias inventadas para tal propósito.

Na idade média, no período em que a igreja romana tinha papel decisivo na tomada de decisões do estado, as pessoas pensavam que a lua, o sol e todos os outros planetas do sistema solar giravam em torno da terra, e que, portanto, éramos o centro do universo. Era um pensamento aristotélico o qual a igreja viu que não contradizia o que a bíblia falava e, portanto, se fez como sendo verdade absoluta. E quem ousasse discordar com a “verdade absoluta” que a igreja pregava sofreria as consequências, ou seja, morreria queimado na fogueira da inquisição. Infelizmente, no momento em que afirmamos que já possuímos a “verdade” estamos renunciando o privilégio da descoberta. E se essa “verdade” for uma mentira? Como que iremos saber se ela é verdade para começo de conversa? Por que alguém me disse? Ou por que todo mundo o faz? É esse tipo de ilusão que a verdadeira ciência tenta combater. “Só quando admitimos não saber algo é que podemos aprender.” Somente quando reconhecemos nossa ignorância sobre determinado assunto, e não nossa suprema confiança em uma “verdade”, é que podemos compreender o mundo ao nosso redor.

E foi isso que Nicolau Copérnico fez no século XVI. Em um período em que o geocentrismo era considerado como fato, Copérnico utilizou-se fielmente da expressão “Nullius in Verba” — do latim “veja por você mesmo”, ou “questione a autoridade” — para tentar, humildemente, entender mais do mundo em que vivia. Como nós já sabemos, Copérnico afirmou que a terra não era o centro do universo e sim apenas mais um planeta que gira ao redor do sol. Isso, é claro, foi tomado como um profundo impacto e ferocidade por parte dos “intelectuais” da época. “Você acha que não somos o centro do universo? Que piada”, possivelmente falavam. Copérnico sofreu perseguições por manter o seu pensamento, o qual foi provado como verdade séculos depois.

Giordano Bruno, o qual concordava com os pensamentos de Copérnico, foi queimado na fogueira da inquisição, décadas depois, por discordar da “verdade” incontestável da igreja. Passado algum tempo, Galileu Galilei descobriu através de seus experimentos e observações que, de fato, Copérnico e Bruno estavam certos todo esse tempo. Ele percebeu que haviam certos pontos no céu perto do planeta Júpiter, o que ele, primeiramente, pensava ser estrelas muito distantes. Porém, depois de várias noites de observação, ele percebeu que esses objetos celestes eram, na verdade, luas e que essas estavam orbitando Júpiter, provando que nem tudo tinha que girar em torno da terra. De fato, essa e inúmeras outras evidencias levaram a acreditar em tal afirmação, e hoje, sabemos que não somos tão especiais assim tendo todos os corpos celestes girando ao nosso redor. A revolução científica modificou a nossa percepção de mundo, saindo do pressuposto que sabemos de tudo, e indo para um pensamento em que não sabemos de tudo, mas estamos dispostos a aprender cada vez mais. Eu acho que esse último é uma forma muito mais humilde e sensata de pensarmos.

Quanto mais conhecemos o nosso universo, mais descobrimos o quão imenso ele é. Só para termos uma noção, a distância entre a terra e o nosso sol equivale a cerca de 150 milhões de quilômetros. A distância entre o sol e o planeta mais distante dele, Netuno, é igual a cerca de 4,5 bilhões de quilômetros. A estrela mais próxima do sol está a cerca de 4,2 anos-luz de distância. Um ano-luz é uma medida de distância que equivale à distância que a luz viaja, em um ano — a velocidade da luz equivale a 300.000 km/s. Isso dá cerca de 9,3 bilhões de km. Agora é só multiplicar 9,3 bilhões por 100 mil, e o resultado é 9,3×10¹⁴ km. A nossa galáxia, a Via Láctea, tem de diâmetro cerca de 100 mil anos-luz. A galáxia mais próxima, a galáxia Andrômeda, está localizada a 2,5 milhões de anos-luz de nossa galáxia. Mas não é só isso. A via láctea é apenas uma entra centenas de bilhões de outras galáxias, cada uma contendo centenas de bilhões, e até mesmo trilhões de estrelas. Quanto mais conhecemos o nosso universo, mais descobrimos o quão vasto ele é, e ao mesmo tempo, o quão pequeno nós somos. Para alguns, isso é algo ruim. Desprezável até. Mas, na realidade, conhecer a vastidão do cosmos nos ajuda a entender o nosso real tamanho no universo, combatendo o egocentrismo exacerbado que, comumente, utilizamos.

No ano 1977, os satélites Voyager 1 e Voyager 2 foram lançados ao espaço. A missão Voyager tinha como intuito aprofundar o conhecimento humano com relação aos planetas Júpiter, Saturno e suas respectivas luas. No dia 14 de fevereiro de 1990, quando a sua missão foi concluída, a Nasa enviou um comando para que o Voyager 1 se virasse e tirasse fotos dos planetas que já tinha visitado. Uma dessas fotos mostrava o planeta terra, a cerca de 6,4 bilhões de quilômetros de distância. O mais interessante é que tudo o que conseguimos ver do planeta terra nessa imagem é apenas um ponto. Somente um ponto.

Por isso, quando aquele sentimento de superioridade bater à porta, pense duas vezes nos breves momentos de reflexão que você fez enquanto estava lendo essas palavras. Lembre-se diariamente que somos apenas um “pálido ponto azul” na imensidão do universo, e não o centro dele. Será que os seus problemas são tão grandes assim? Acho que não. Quando colocamos em perspectiva tal realidade, entendemos o nosso tamanho comparado com o universo e um sentimento de humildade floresce. Quando algo parecer sem solução, ou quando algum problema aparentemente insolúvel surgir, coloque as coisas em perspectiva e você irá perceber que não vale a pena se estressar. Quando fazemos isso, aprendemos a valorizar cada pequena coisa. Os raios solares de cada manhã, nossos familiares, amigos, a própria vida em si. Somente quando fazemos isso é que estamos aproveitando de forma completa essa breve passagem por aqui. No seu dia a dia, tenha a humildade para compreender que você não sabe de tudo, e nunca vai saber. A certeza que deve estar enraizada na sua alma é que nunca se deve parar de aprender. Seja curioso, sempre. Durma cada dia mais experto, e com certeza, uma hora, você irá perceber que quanto mais você aprende, mais há algo para ser aprendido.

Termino esse breve pensamento citando o astrônomo e divulgador científico Carl Sagan, uma das frases presentes em seu livro intitulado O pálido ponto azul (em inglês, The Pale Blue Dot). Reflita:

Olhe novamente para aquele ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos aqueles que você já amou, todos aqueles que você conhece, todos que você já ouviu falar sobre, todo ser humano que já existiu, viveu sua vida aqui. O aglomerado de nossos prazeres e sofrimentos, milhares de confiantes religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de nossa civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal apaixonado, cada mãe e pai, esperançosa criança, inventor e explorador, cada pregador de morais, cada político corrupto, cada “superestrela”, cada líder supremo, cada santo e pecador na história de nossa espécie viveu aqui — nessa simples partícula de poeira suspensa por um raio solar.

A Terra é uma pequena parte em uma vasta área cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que, em majestosa glória e triunfo, eles se tornassem os mestres temporários de uma fração de um simples ponto. Pense nas infindáveis crueldades feitas por habitantes de um lado desse pixel em quase indistinguíveis habitantes de algum outro lugar, quão frequente suas dúvidas, quão desesperados estão para matar uns aos outros, quão fervorosos seus rancores. Nossas posturas, nossa imaginada auto importância, a ilusão de que possuímos uma posição privilegiada no universo são desafiadas por esse ínfimo ponto de luz. Nosso planeta é um solitário grão em uma envolvente escuridão cósmica. Em nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há nenhuma evidência de que ajuda virá para nos livrar de nós mesmos.

O planeta Terra é o único planeta conhecido até agora que abriga vida. Não há nenhum lugar, pelo menos em um futuro próximo, cujo nossa espécie pode migrar. Visitar, sim; permanecer, ainda não. Goste ou não, no momento, é nesse planeta onde iremos nos abrigar.

Já foi dito que a Astronomia é uma experiência humilde e construtora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração das falíveis vaidades humanas do que essa distante imagem de nosso pequeno mundo. Para mim, isso aumenta nossa responsabilidade de lidar mais gentilmente com o nosso próximo, e de preservar e apreciar ainda mais o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.”

Escrito por Weslley Victor.

Projeto Acervo Ciência


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Sobre o Autor

Gabriel Pietro têm 18 anos, é Web Designer e Redator do Acervo Ciência, escrevendo diariamente para o site. Já bancou uma de técnico de informática, e ainda banca de astrônomo amador, sua maior paixão. Atualmente gradua-se no curso de Gestão da Informação, na Universidade Federal de Uberlândia, que não sabe se é de exatas ou de humanas. Assim como ele. Também é aficionado por cinema, comics, política, economia, tretas e música indie. Bata tudo isso no liquidificador e tente entender sua cabeça.