No dia 31 de Outubro teremos os 500 anos da publicação das 95 teses de Martinho Lutero (1517-2017), evento que é considerado um marco da Reforma Protestante. Esse cisma na cristandade gerou efeitos de grande impacto na cultura e na sociedade ocidental até hoje.

Antes de qualquer coisa, é bom avisar: este artigo não se trata de Teologia ou Religião, mas sobre História, Política e Economia.

John Wycliffe (1328-1384)

Embora Lutero seja talvez o reformador mais conhecido, esse processo antecede ele, assim como também continua posteriormente. John Wycliffe foi um teólogo e padre inglês que viveu no século XIV, e um dos primeiros críticos internos da Igreja Católica. Após denunciar o que acreditava ser “privilégios e luxos do clero”, foi censurado pelo papa Gregório XI. Continuando suas críticas, Wycliffe fez a primeira tradução da Bíblia do latim para o idioma inglês.

O trabalho de John Wycliffe inspirou outro reformador, Jan Hus, da região da Boêmia, hoje na República Tcheca; de 1378 a 1417 – praticamente o período da vida de Hus, – a Igreja Católica viveu o Cisma do Papado, em que dois (e depois três!) candidatos reivindicaram ser o verdadeiro papa. Isso gerou uma disputa política que culminou com a execução de Hus, um dos principais líderes locais: queimado na fogueira. Sua morte desencadeou as Guerras Hussitas, com o papa Martinho V ordenando cruzadas contra os seguidores de Jan Hus, vistos como “hereges”.

Os hussitas conseguiram resistir e fundaram a Igreja da Morávia, uma das primeiras igrejas protestantes e que existe até hoje. Uma das críticas centrais tanto de Wycliffe, quanto de Hus, era a contra a venda de indulgências. Para os líderes católicos da época, a contribuição financeira dos fiéis garantia o perdão para pecados, e, quanto maior a contribuição, maior o perdão. Para os pré-protestantes, apenas a fé em Deus poderia redimir os pecados. De qualquer modo, as indulgências eram uma das principais maneiras da igreja conseguir dinheiro.

No caso da Boêmia, as contribuições eram para financiar cruzadas contra movimentos hereges. Décadas depois, o que motivaria as críticas de Lutero seria a cobrança de indulgências para custear a construção da Basílica de São Pedro. Lutero, então doutor em Teologia na Universidade de Wittenberg, escreveu ao bispo de Mainz um documento em latim chamado de “debate para o esclarecimento sobre o poder das indulgências”, que consistia de 95 teses.

A de número 86 diz: “por que o Papa cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos não constroi com seu próprio dinheiro ao menos esta uma Basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?”

Segundo Lutero e o bispo, a carta era acadêmica e buscava discutir, não doutrinar.

E ao contrário ao que diz a lenda, Lutero não pregou suas teses na porta da Catedral; mesmo assim, as teses de Lutero – para os padrões do início XVI, viralizaram. Cópias em alemão começaram a circular rapidamente. Em poucos meses, toda a Europa já sabia das críticas de Lutero.

Não, essa cena jamais aconteceu.

O bispo enviou a carta de Lutero ao Papa pela potencial heresia e por que o bispo também necessitava do dinheiro das indulgências. Após anos de disputas e julgamentos sobre heresia, Lutero recebeu um ultimato do Papa de renunciar aos seus escritos. Em dezembro de 1520, Lutero ateou fogo no decreto do Papa, e no mês seguinte estava excomungado da Igreja. Como caberia ao poder temporal a tarefa de fiscalizar a proibição dos escritos de Lutero, ele foi convocado a comparecer perante a Dieta de Worms, com a presença do imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Carlos V.

Como resultado, Lutero foi declarado um criminoso e que deveria ser punido como um herege. Qualquer um em território imperial que abrigasse Lutero também seria um criminoso. Lutero conseguiu sobreviver com a ajuda de um aliado da nobreza: Frederico III, da Saxônia, um dos eleitores do Sacro Império. Lutero foi abrigado no Castelo de Wartburg em 1521, onde começou a tradução da Bíblia para o alemão.

Lutero viveu até 1546 – morreu com 62 anos de idade e sua vida reúne diversos outros episódios, tanto religiosos, quanto polêmicos.

Mas indo além: o que possibilitou a rápida expansão do protestantismo para toda a Europa?

Primeiro, a imprensa.

Em 1440, o joalheiro alemão Johannes Gutenberg inventou um sistema mecânico de tipos móveis; sua invenção permitiu a produção em massa de livros de forma economicamente viável. Antes, um copista demoraria horas para fazer um manuscrito de um texto. Agora, a máquina de Gutenberg imprimia dezenas de cópias em uma hora.

E uma das primeiras fontes de lucro da nova empreitada, a impressão de centenas de diplomas de indulgências em 1452. Anos depois, em 1455, a Bíblia em 42 linhas de Gutenberg seria o primeiro livro produzido em massa na história.

As teses de Lutero, seus livros e sermões, além da Bíblia em alemão, se beneficiaram desse fenômeno atingindo mais pessoas em uma velocidade (ainda) inédita, com a região que hoje é a Alemanha, sendo o berço da impressão em massa.

Outra questão importante é o contexto do período… a sede da igreja era e ainda é em Roma, na península itálica. Dos séculos XIV ao XVII, ou seja, o período que inclui a vida de Lutero, as regiões italianas passam pelo que é chamado de “Renascença“, possibilitada pelo fluxo comercial pelo Mediterrâneo – que enriquece a Itália. Os diversos estados italianos travarão intensas disputas entre si pelo predomínio dessas rotas comerciais e fontes de riqueza.

Um dos atores dessas disputas serão os Estados Papais; por exemplo, o papa Júlio II, que antecede Lutero, tornou-se conhecido por liderar pessoalmente tropas em batalha! A riqueza mercantil da região italiana contrastava com a economia pouco desenvolvida do interior alemão, basicamente agrário.

A cobrança de indulgências para financiar guerras ou construções da igreja era vista não apenas como uma questão teológica, mas como algo indevido, já que a Itália já era uma região mais rica. Esse pensamento se agravou com o comércio ultramarino, que vai enriquecer a península ibérica, também de reinos católicos. Essa polaridade econômica também servirá para disputas políticas.

Com o surgimento de identidades nacionais, temos um distanciamento das sociedades locais em relação à Igreja. Com a Reforma Protestante virão ideias de igrejas locais, incorporando aspectos de cada cultura. Nobres e líderes da Europa que buscam maior autonomia e independência em relação ao papado enxergaram nas ideias de Lutero uma argumentação teológica que podia ser aproveitada em questões políticas. Um nobre defender o protestantismo e suas terras não seriam bem ou apenas uma questão de fé, mas de não ter mais que obedecer autoridades que eram vistas como distantes ou com outros interesses.

Um exemplo é a formação da Igreja Anglicana, que une poder temporal e poder espiritual. Hoje, a chefe da igreja é a rainha do Reino Unido, Elizabeth II, além claro de poder impostos que antes seriam devidos para a igreja. Por causa desse contexto de diferentes interesses econômicos e políticos com questões culturais e sociais que a reforma de Lutero será o estopim para uma série de revoltas e de guerras, culminando em 1618 com a Guerra dos Trinta Anos, um confronto político e religioso entre católicos e protestantese a maior guerra europeia até o século XIX (lê-se: Napoleão).

Como todo tema complexo, lembro que fontes e mais material sobre Lutero, a Reforma Protestante e suas consequências estarão “linkados” abaixo.

Fonte Principal:Nerdologia

Embasamento:

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Sobre o Autor

Gabriel Pietro têm 18 anos, é Web Designer e Redator do Acervo Ciência, escrevendo diariamente para o site. Já bancou uma de técnico de informática, e ainda banca de astrônomo amador, sua maior paixão. Atualmente gradua-se no curso de Gestão da Informação, na Universidade Federal de Uberlândia, que não sabe se é de exatas ou de humanas. Assim como ele. Também é aficionado por cinema, comics, política, economia, tretas e música indie. Bata tudo isso no liquidificador e tente entender sua cabeça.